Flodoaldo é um rapaz de 16 anos como tantos outros, e tem seus problemas como tantos outros rapazes de 16 anos. Um deles porém é particularmente especial: Flodoaldo tem vergonha do próprio nome. Isto transformou-o em alguém tímido, retraído, quase sem amigos. E tudo isto acabou impedindo-o de conseguir o que ele mais queria neste momento especial de sua vida, a adolescência: uma namorada.
Mas eis que um dia Flodoaldo vai a uma festa, e lá encontra Kátia, uma bela morena que há muito despertara sua atenção. Depois de vários sorrisos e olhares de parte a parte, ele decide que precisa fazer alguma coisa, mas sua timidez o impede de se aproximar. Nisto, alguém lhe oferece uma cerveja, que ele prontamente aceita para impressionar sua deusa.
A medida que ingere mais e mais goles de cerveja, uma verdadeira mutação ocorre em Flodoaldo: sente-se eufórico, livre de todas as barreiras que até alguns minutos atrás eram o empecilho entre ele e Kátia. Aproxima-se dela, conversam sobre quase tudo sem dizer quase nada e terminam a noite como dois apaixonados cujo amor era inevitável.
Final feliz? Talvez, se a estória terminasse nesta festa, ou se Flodoaldo e Kátia se casassem daqui a mais alguns anos, teríamos um final assim. Mas este é um livro sobre drogas, e não a sinopse da novela das oito. A saga de Flodoaldo, infelizmente, precisa seguir em frente.
O namoro durou apenas alguns meses. Sozinho, Flodoaldo resolveu repetir a experiência que já havia dado certo, e desta maneira, toda vez que queria ficar com alguém, bebia. Caso contrário, apoderava-se dele uma sensação de completa incapacidade para relacionar-se com quem quer que fosse.
Adquiriu o que chamamos de dependência psíquica.
Alguns precisam fumar um baseado para enfrentar uma prova na escola, por exemplo. Executivos dependentes psiquicamente de cocaína necessitam cheirar algumas carreiras para fechar um negócio. A sensação que se tem é de que a droga acaba se tornando a base da personalidade da pessoa que a utiliza, e que sem ela tudo torna-se muito difícil, quando não impossível.
Voltemos a Flodoaldo. Alguns anos passaram-se, e seu consumo de bebidas alcoólicas tornou-se cada vez maior. Para tentar alcançar a desenvoltura que conseguiu na primeira vez em que bebeu, ele consome mais e mais doses. Esta tolerância aconteceu porque seu organismo acostumou-se com a droga, respondendo cada vez com menor intensidade aos seus efeitos.
O mundo de Flodoaldo já não é mais o mesmo. Afastou-se dos antigos amigos; o relacionamento com a família tornou-se difícil, tenso, quase impossível; não faz novas amizades e desinteressou-se completamente pela faculdade. No emprego as coisas estavam de mal a pior; Flodoaldo tornou-se um funcionário relapso, que sempre chega atrasado e nunca consegue cumprir as metas que lhe são impostas. Não foi demitido apenas porque ocupava um cargo público, apadrinhado por um político local, e, afinal, as coisas públicas neste país, ao invés de serem de todos, não são de ninguém. Beber tornou-se a única coisa importante na vida de Flodoaldo, o resto era apenas o resto. Isto é conhecido como relevância do beber.
Deixou de selecionar o que bebia; o que tinha para beber estava bom. E num dia em que havia bebido ainda mais do que de costume, e que estava particularmente orgulhoso da quantidade de álcool que havia consumido sem sequer vomitar, Flodoaldo entrou em coma alcoólico. No dia seguinte acordou no hospital, onde uma enfermeira tentava com paciência explicar-lhe o que havia acontecido. Na verdade, Flodoaldo sofrera o que chamamos de overdose, ou seja, ingeriu uma quantidade de álcool maior do que a suportada por seu organismo. Içami Tiba, em 123 Respostas Sobre Drogas, explica muito bem esta questão, ao referir-se que “o organismo humano tem um limite na sua capacidade de metabolização (eliminação) da droga ingerida, que geralmente é feita pelo fígado. A metabolização é a maneira pela qual a droga é decomposta, resultando em outros compostos mais simples que são menos tóxicos que a droga. Quando a velocidade da metabolização for menor que a da ingestão (aquisição), a droga vai-se acumulando no organismo, chegando a níveis que provocam parada cardíaca e/ou parada respiratória e/ou depressão geral do sistema nervoso central...”, muitas vezes podendo levar a morte. Ao ser perguntada por Flodoaldo sobre o que ele poderia fazer para que isto não acontecesse novamente, a enfermeira sorriu e disse-lhe que bastava apenas que ele parasse de beber.
Claro que ele já pensara muitas vezes em parar. Mas quando isto acontecia, parecia que todo seu corpo pedia apenas mais um copo, e um desconforto enorme apoderava-se dele enquanto este desejo não fosse saciado. Flodoaldo era praticamente impelido até o bar onde, é claro, não bebia apenas uma dose. Não sabia, mas este conjunto de reações tem um nome: compulsão.
Mais alguns anos se passaram, a vida correndo assim, apenas espiada por Flodoaldo pela janela de um bar. Até que um acidente de carro mudou o rumo das coisas. Não que isto nunca tivesse ocorrido antes; na verdade ele já perdera as contas de quantas vezes tinha batido com o carro, sempre embriagado, sempre (ao menos para ele) inocente. Mas nunca ninguém se havia machucado antes, não como desta vez. Ele havia atropelado uma senhora com mais de sessenta anos, e fugira sem sequer perceber direito o que havia acontecido. Foi preso em sua casa algumas horas mais tarde, e o teste a que foi submetido demonstrou que o nível de álcool no seu sangue era cerca de três vezes o limite máximo permitido para dirigir. Flodoaldo teve sua licença de motorista apreendida e começou a responder um processo criminal.
Desta vez ele estava realmente decidido a parar. As humilhações que sofrera na delegacia, as agressões dos parentes da velha senhora, o descaso da sua própria família para com toda a situação impeliram-no a fazer alguma coisa. Ainda sob o efeito das doses que havia tomado no dia anterior, resolveu que pararia de beber durante algum tempo. Para tanto, muniu-se apenas de sua força de vontade. O que Flodoaldo não sabia é que força de vontade é o elemento principal na recuperação da dependência de qualquer pessoa, mas nem sempre funciona sozinha.
A primeira noite foi particularmente terrível. Uma insônia cavalar o fez fritar na cama durante toda a madrugada, virando de um lado para outro como se fosse um bife na chapa. Ao escovar os dentes pela manhã, notou uma grande tremedeira em suas mãos, o que só fez aumentar a irritação que sentia com tudo aquilo. O resto do dia não foi diferente; um Flodoaldo nervoso, inquieto e mau-humorado tentava desesperadamente atravessar as horas que faltavam para o expediente terminar. Estava atravessando uma síndrome de abstinência, que é uma característica da dependência física. A grosso modo pode-se dizer que o organismo necessita da droga (no caso, o álcool) para continuar funcionando direito, e sofre com sua falta. Isto acontece porque a droga entra no metabolismo do corpo, passando a fazer parte das reações bioquímicas deste. Apesar de todo o desconforto, munido apenas de sua força de vontade, Flodoaldo conseguiu atravessar aquele dia sem beber, e o próximo, e mais outros, até que sua vida começou a ter um novo ritmo e as coisas começaram a dar certo.
Mas alguns meses depois, na saída do trabalho, ao passar pelo bar onde sempre dava uma paradinha para tomar umas e outras, Flodoaldo pensou que apenas uma dose não faria mal algum; afinal de contas, já estava há bastante tempo sem beber. Entrou no bar e bebeu até a hora de fechar, e durante os dias seguintes voltou a mesma rotina de antigamente, bebendo para esquecer que bebia. Havia tido uma recaída. Voltou a beber como antes, o que tecnicamente é conhecido como reinstalação da maneira de beber, continuando assim por algum tempo, até que...
Seu organismo começou a dar sinais de que alguma coisa estava errada. Uma azia muito forte, que parecia imune a qualquer remédio, chá ou sal de fruta que Flodoaldo tomasse, começou a ficar cada vez pior, até que tornou-se impossível beber sem muito sofrimento. O uso da droga resistia mesmo com todos os prejuízos que ela causava em seu organismo. E foi por este motivo que ele acabou procurando um médico. Depois de vários exames, descobriu-se que Flodoaldo estava com gastrite, acompanhada ainda de pressão alta, ambas decorrentes do consumo exagerado do álcool. O bom doutor deu-lhe, junto com o receituário, o nome e endereço de um psiquiatra especialista em “problemas deste tipo”. Evitou utilizar-se da palavra alcoolista, pois a negação da doença é comum a quase todos os dependentes de qualquer tipo de droga. Afinal, ele já fizera o que podia, tratando as conseqüências de seu alcoolismo. O psiquiatra trataria de ajudá-lo a parar de beber.
A princípio bastante reticente com os resultados práticos que obteria com aquelas sessões, Flodoaldo começou a tomar os remédios que o psiquiatra lhe indicava para reduzir os efeitos da síndrome de abstinência. Estes, aliados a sua força de vontade, tornaram mais fácil ficar longe da bebida. Claro que as coisas não foram tão fáceis, mas (desculpem-nos o chavão) nada na vida que realmente valha a pena o é. Algumas vezes, ao passar na frente dos locais onde bebia ou ao encontrar antigos companheiros de copo, Flodoaldo sentia uma necessidade quase incontrolável de beber novamente. Depois de uma ou duas recaídas, aprendeu que este desejo intenso tinha o nome de fissura, e acabou transformando-as em aprendizado. Assim, passou a evitar estes locais que lhe traziam tantas recordações, bem como as pessoas com quem bebia antes. Passou a não levar mais dinheiro consigo, aposentando também o talão de cheques, pois sabia que ter dinheiro no bolso facilitava as coisas, e afinal de contas nenhum daqueles bares vendia bebidas no cartão de crédito. Passou, enfim, a aprender com seus próprios erros, sempre buscando fórmulas para não repeti-los.
Vale ressaltar que a estória acima procura apenas tornar mais fácil a compreensão da evolução da dependência de drogas, bem como ilustrar alguns termos utilizados neste meio que nem sempre são de compreensão do público em geral. As situações e a rapidez dos sintomas variam de acordo com a droga utilizada, sendo que algumas drogas não produzem determinados tópicos aqui abordados (a overdose pelo uso de tabaco, por exemplo, é praticamente nula). Há ainda uma grande variabilidade pessoal a ser considerada, sendo importante ainda destacar o meio social do usuário. Não procuramos fazer uma análise exaustiva de todos os problemas e implicações do uso específico da droga que utilizamos como exemplo (o álcool), até porque a finalidade do livro é abordar o assunto de uma maneira prática e clara. Sobre o tema, bem como qualquer outro, não existe uma obra definitiva, mas o leitor poderá encontrar na bibliografia alguns volumes onde informações mais técnicas e precisas estarão a sua disposição.
Ah, quanto a Flodoaldo, ele tornou-se um novo homem. Para reforçar seu tratamento, ingressou também no Alcoólicos Anônimos e em um programa de prevenção a recaída. Suas novas atitudes perante a vida mudaram-no radicalmente, e este novo modo de viver com mais equilíbrio propiciou-lhe encontrar sua cara metade: casou-se e tem três filhos. Mudou também o nome que tanto lhe incomodava, e se você algum dia passar na rua por alguém de bem com a vida, pisque-lhe um olho. Pode ser Flodoaldo, ou melhor, o novo Flodoaldo...
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