Estamos habituados a associar a palavra droga apenas a substâncias como maconha e cocaína; há uma convenção sócio-cultural de droga é algo ilícito ou muito chato. Na verdade, droga é um conceito muito mais amplo. Nas definições contidas no dicionário Aurélio, droga significa:
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Qualquer substância ou ingrediente que se usa em farmácia, em tinturaria, etc.
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Medicamento.
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Produto oficinal (3), de origem animal ou vegetal, no estado em que se encontra no comércio.
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Medicamento ou substância entorpecente, alucinógena, excitante, etc. (como, p. ex., a maconha, a cocaína), ingeridos, em geral, com o fito de alterar transitoriamente a personalidade.
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Fig. Coisa de pouco valor.
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Coisa enfadonha, desagradável.
Já segundo a OPAS - Organização Pan-Americana de Saúde, droga psicotrópica é aquela que age no cérebro, modificando o seu funcionamento, trazendo como conseqüência alterações do comportamento e do psiquismo.
Dentre as substâncias que normalmente não consideramos como drogas, o álcool e o tabaco são as mais preocupantes. Toda uma cultura foi criada em torno destas substâncias, estabelecendo um relacionamento tanto mais perigoso quanto maior for nosso desconhecimento sobre os riscos que a convivência com elas nos traz. No passado, as propagandas destes produtos traziam sempre imagens ligadas ao sucesso, criando no inconsciente dos que viveram aquela época uma quase necessidade de consumi-los. Esta cultura da droga lícita ainda existe e está ativa. Torna-se evidente quando, no verão, convidamos os amigos para tomar uma cervejinha depois do trabalho. Nos estados em que o inverno é mais rigoroso, um convite para tomar um vinho em frente a lareira é sempre carregado de sedução.
Antes que você feche este livro ou procure um mosteiro e adote o hábito como única peça de seu vestuário, é preciso deixar claro, a respeito destas duas drogas, que não é necessário que os pais tornem-se completamente abstêmios, mas que evitem fumar ou beber diante de seus filhos. Quando um adolescente vai a uma festa e acaba bebendo acima de seus limites, muitas vezes num aquecimento para reunir a coragem necessária e ficar com alguém, é necessário antes de tudo um exame de consciência dos pais para definir quanto eles contribuíram, mesmo que involuntariamente, para esta situação. Também é preciso aprender a identificar quando estas substâncias começam a trazer problemas de saúde e de relacionamento com as outras pessoas. A dependência de drogas é uma doença como qualquer outra, e precisamos aprender a detectá-la (resguardadas todas as diferenças) como identificamos um resfriado, por exemplo.
No contexto legal, as drogas dividem-se entre drogas lícitas e drogas ilícitas. As drogas lícitas são aquelas vendidas legalmente, controladas ou não. Álcool, tabaco, cola de sapateiro, moderadores do apetite, estimulantes (conhecidos também por rebites), morfina, éter, benzina, barbitúricos, xaropes (opióides) e tranqüilizantes são os principais exemplos.
Ilícitas são as drogas comercializadas ilegalmente. Maconha, cocaína, crack e ecstasy (bala) despontam entre as mais utilizadas.
Existe ainda uma outra divisão, que classifica as drogas pela maneira com que elas alteram o funcionamento cerebral. Antes porém, vamos conhecer de uma maneira simplificada um pouco mais sobre este complexo órgão.
O cérebro humano é composto de vários bilhões de neurônios que conduzem informações em todas as direções. Quando a temperatura cai, por exemplo, esta informação captada pela pele percorre o cérebro numa velocidade fantástica através dos neurônios, produzindo a sensação de frio. Mas há uma particularidade: entre dois neurônios existe uma brecha chamada de espaço sináptico, impedindo que um toque no outro. Como então a informação vai ser transmitida? Para responder a esta pergunta vamos imaginar dois neurônios: Mário e João. Mário quer perguntar a João se está tudo bem, mas há um buraco (o espaço sináptico) entre os dois. Mário, já prevendo que este momento chegaria, utiliza-se então de uma substância química que ele havia armazenado justamente para esta ocasião. Esta substância, que passaremos a chamar de neurotransmissor, preenche o buraco e reage com João, transmitindo-lhe a informação (“João, tudo bem?”). João agora quer mandar uma resposta de volta, mas o buraco está preenchido com o neurotransmissor de Mário. Ele então destrói este neurotransmissor e enche o buraco com o seu, enviando a resposta (“Não me amole, Mário. Esqueceu que estamos brigados?”). João, muito econômico, recupera então parte do neurotransmissor e volta a guardá-lo para utilizá-lo em outra ocasião. Na verdade, a comunicação entre os neurônios não se processa na base de um para um; um neurônio pode comunicar-se com até 250.000 outros neurônios. A pequena história acima apenas ilustra o que realmente acontece.

As drogas psicotrópicas agem nestes neurotransmissores de várias maneiras: interferindo em sua síntese, no seu armazenamento, nos seus mecanismos de destruição, nos receptores dos neurônios que estão recebendo a informação; enfim, alterando o funcionamento perfeito e harmônico do mais nobre de nossos órgãos. Isto acontece de três maneiras:
Os estimulantes fazem o cérebro funcionar mais rapidamente, colocando-o sob um estado de alerta exagerado. Causam euforia e bem-estar com o conseqüente aumento da capacidade de trabalho. Como exemplos, podemos citar os rebites (largamente usados por caminhoneiros para atravessarem as noites sem dormir, e não raras vezes fornecidos pelos próprios patrões), moderadores do apetite e a cocaína.
As drogas depressoras fazem com que o sistema nervoso central funcione de uma forma mais lenta. Seu uso na medicina é útil, pois algumas delas agem nas áreas do cérebro responsáveis pela dor, diminuindo o excesso de atividade e, conseqüentemente, diminuindo a sensação de dor. Não agem sobre as causas do problema, apenas nos sintomas. Um exemplo disto são os analgésicos, que podem ser utilizados para o tratamento da dor causada por um corte, que por sua vez deverá receber um curativo para efetivamente tratá-lo. Trazem ainda uma sensação de tranqüilidade e desligamento da realidade. Álcool, barbitúricos, tranqüilizantes, morfina e heroína incluem-se neste grupo.
Por fim, temos os alucinógenos, que agem perturbando o funcionamento do cérebro. Estas drogas não aceleram nem diminuem o ritmo do sistema nervoso central, mas confundem os neurônios a ponto de causarem alucinações visuais, táteis ou auditivas (o usuário vê coisas ou escuta sons que não existem), delírios (complexos de perseguição são muito comuns nestes casos: se uma viatura policial se aproxima, a pessoa que faz uso destas substâncias pensa que está para ser presa), ilusões (um inseto qualquer pode transformar-se em um pequeno monstro) e alucinações (ouvir coisas mesmo com o mais completo silêncio). Estes efeitos podem ainda serem acompanhados de sensações de euforia. Maconha, LSD, chá de cogumelos e haxixe são os principais representantes deste grupo.
Finalmente, as drogas ainda podem ser naturais ou sintéticas, dependendo de sua origem. As drogas naturais são provenientes de plantas, enquanto que as drogas sintéticas são produzidas em laboratório, ainda que muitas vezes desdobradas a partir de substâncias naturais. É importante esclarecer que uma droga não causa menos malefícios ao organismo do que outra por ser natural. Venenos altamente mortais como a estricnina e o cianureto também são naturais.
Outro aspecto que também deve ser analisado diz respeito ao consumo de drogas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a seguinte classificação para as pessoas que utilizam substâncias psicoativas:
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Não-usuário: nunca utilizou drogas.
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Usuário leve: utilizou drogas, mas no último mês o consumo não foi diário ou semanal.
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Usuário moderado: utilizou drogas semanalmente, mas não diariamente, no último mês.
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Usuário pesado: utilizou drogas diariamente no último mês.
Precisa ficar claro que não existe um consumo que seja completamente livre de riscos. Quando o consumo é moderado e cauteloso, é chamado de consumo de baixo risco. Quando a pessoa apresenta problemas sociais (brigas, faltas no emprego), físicos (acidentes) e psicológicos (agressividade) relacionados apenas a um episódio de consumo, diz-se que esta pessoa faz uso nocivo da substância. Por fim, quando o consumo se mostra compulsivo e destinado a fugir dos sintomas da abstinência e cuja intensidade é capaz de ocasionar problemas sociais, físicos e/ou psicológicos, fala-se em dependência.

Para nossa melhor compreensão, consideraremos apenas dois tipos de usuários: o usuário recreativo ou ocasional e o usuário problema ou dependente. Tomemos como exemplo o uso do álcool: a maioria das pessoas utilizam as bebidas alcoólicas recreacionalmente, sabendo quando parar e o que podem ou não fazer depois de ter ingerido uma certa quantidade de álcool. É muito raro pessoas que bebem pequenas quantidades de álcool terem problemas, pois existe um controle sobre a bebida. Nos dependentes, isto não acontece. A vontade de beber pode ser tão intensa que o usuário não consegue controlar-se, precisando dos efeitos do álcool para sentir-se capaz de exercer as tarefas comuns ao dia a dia de todos nós. É preciso estar alerta para o fato de que mesmo entre os dependentes há vários níveis de intensidade: no exemplo anterior, o consumo de álcool interferiu em tudo aquilo que anteriormente era importante para a pessoa.
Claro que não precisa ser dependente para ter problemas: aqueles que quando bebem se metem em brigas e acidentes, mesmo bebendo de vez em quando, utilizam o álcool de modo nocivo e correm riscos que poderiam ser evitados. É importante saber que nem todo usuário recreativo será um dia um dependente, mas com certeza, todo dependente já foi um dia um usuário recreativo.
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