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Drogas.

Sejam elas lícitas ou não, estejam nos morros ou apartamentos de cobertura, no bar mais próximo da fábrica ou na mesa do executivo, fumada pelo pré-adolescente ou engolida na busca do alívio imediato para as ansiedades de uma vida estressante, usada pela dona de casa em busca do emagrecimento ou pelo caminhoneiro que quer apenas atravessar a noite sem dormir. Aumento da criminalidade, suicídio, corrupção, elevação do número de acidentes automobilísticos, lavagem de dinheiro oriundo do tráfico, falta de segurança nas grandes cidades, crescimento do número de acidentes do trabalho, superlotação dos presídios. Infelizmente, estas são apenas as partes mais visíveis da devastação que as drogas causam em nossa sociedade.

Se você não tem em sua família ou em seu círculo de amizades alguém que use drogas, mande-me um cartão postal; sempre tive curiosidade em conhecer outros planetas. Caso contrário, saiba que este é um problema que atinge todas as classes sociais, sem distinção de cor, raça, sexo ou religião. Creio que é o grande enfrentamento da humanidade nesta virada de milênio, e ao contrário do que tem sido divulgado a solução não está na liberação do uso de drogas, tampouco na repressão pura e simples aos usuários. Nossa grande arma é a informação, e nenhuma atitude isolada é eficaz.

Através dela, poderemos realmente conversar com nossos filhos em um trabalho de prevenção ao uso de drogas. Pais atentos e informados saberão identificar se e quando o adolescente começa a utilizá-las, tornando o tratamento mais rápido e fácil. Se o problema já tiver tomado proporções maiores, estaremos preparados para agir da maneira mais adequada possível, evitando erros que muitas vezes comprometem a recuperação de nossos filhos queridos.

Tampouco podemos nos esquecer que muitas destas substâncias psicoativas tem função médica, desde que usadas com orientação adequada. Tornar-se-ão drogas quando o uso for distorcido, muitas vezes dentro da cultura de tomar um remédio que um dia fez bem a um vizinho; a famosa auto-medicação.

Somente derrubaremos os mitos, mentiras e, por que não, os mistérios que cercam este polêmico assunto com o conhecimento da realidade sobre as drogas. Seus efeitos no organismo, as alterações que causam na percepção de quem as usa e os malefícios a médio e longo prazo são noções básicas que devem ser transmitidas de uma maneira de fácil compreensão. O tecnicismo com que o tema vem sendo abordado até agora afasta-o do domínio público, por vezes ficando nas mãos de pessoas que podem utilizá-lo apenas com fins eleitorais ou financeiros. A droga é um grande negócio que pode mobilizar milhares de votos e alguns bilhões de dólares em qualquer país do mundo.

Uma guerra está sendo travada neste momento, e seu resultado vai influir diretamente no planeta que nossos filhos herdarão. Isto pode parecer um tanto dramático para o leitor desavisado, mas o simples ato de abrir um jornal consolidará esta afirmação. Cabe a cada um de nós fazer a sua parte, ao invés de lamentar a atual situação e apenas culpar as autoridades. Para ilustrar, segue uma pequena história que além de real, é uma lição de cidadania e fraternidade.

Dona Maria é uma das milhares de habitantes das vilas de Porto Alegre. Apesar de estar com quase setenta anos, mora sozinha no lugar onde criou e viu crescer seus filhos e netos, preferindo continuar na vila a mudar-se com eles para um lugar melhor. Mesmo assim, algo a incomodava. Algumas crianças de seis, sete, dez anos perambulavam pelas estreitas vielas como zumbis, cheirando cola de sapateiro ou loló como se isto fosse parte natural de suas infâncias. Pais e mães omissos, na maioria das vezes alcoolistas, agravavam ainda mais o problema com surras e outras violências revoltantes. Cansada de observar tudo isto de mãos atadas, dona Maria resolveu fazer alguma coisa. Reuniu algumas destas crianças para conversarem. Sabia que para elas de nada adiantaria falar sobre o malefício que as drogas trazem ou qualquer coisa que o valha. Precisava de algo palpável e imediato para dar em troca da abstinência daqueles pequenos dependentes. Fez então uma proposta: se em uma semana eles permanecessem dois dias sem usar qualquer tipo de droga, ela retribuiria pagando um cachorro quente no sábado.

Sob a visão de um adulto, um cachorro quente não é lá grande coisa. Mas para os olhos de uma criança é algo sensacional. E para uma criança favelada que enxerga o limite do mundo onde começa o asfalto é algo fantástico. Elas começaram a bater na porta da casa de dona Maria cada vez em maior número, mostrando a cara limpa, naquele dia livre do uso de drogas. Sua aposentadoria que já era baixa ficou ainda menor, mas ela nunca reclamou disto. Está feliz porque conseguiu trazer um pouco de esperança àquelas crianças e ainda hoje continua fazendo sua parte.

É o que se espera de cada um de nós. Vamos tirar este assunto debaixo do tapete e chutar a hipocrisia que muitas vezes cerca nossas relações sociais, conversando e debatendo em casa, na escola, nas empresas, entre amigos. Vamos construir um novo país para nossos filhos e netos com a certeza de que isto não é apenas um sonho.

Basta que cada um faça a sua parte.


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